OHGEV60

Por Tatiane Tavares

“Se fizer silêncio, ganha uma bala; se fizer o dever, ganha um biscoito; se comer tudo, assiste TV”… Ultimamente são tantas as concessões, que até mesmo as crianças podem se confundir com demasiadas permissões e negações. Seria essa uma prática eficaz? Segundo Alfie Kohn, autor de Unconditional Parenting, 2005, (Paternidade e Maternidade Incondicionais, em tradução livre), a resposta é não.

Alfie Kohn ao longo de seu livro, desenvolve, com embasamento em estudos e pesquisas, uma tese para provar que “há problemas sim em se tentar mudar o comportamento das crianças punindo-as ou recompensando-as”.

O escritor americano critica esse modelo de educação baseada em castigos e/ou recompensas. Pois, afirma que os pais deveriam se questionar menos “como fazer meu filho agir como quero? E se perguntar mais “do que meu filho precisa e como posso ajuda-lo?” Ainda segundo Kohn, a ideia de que, vivemos em um mundo centrado na criança, ou seja, de uma sociedade atual com pais permissivos que tornam seus filhos o centro de suas vidas, é falsa. Logo, tal pratica não surtiria efeito.

Outro ponto importante, é que as crianças talvez podem não demonstrar seus sentimentos, mas podem viver frustradas, por que seus pontos de vista não são levados a sério. Muitos pais tratam os filhos como irritantes desconhecidos quando elas não alcançam suas expectativas. Mas lembrando que tais expectativas são dos pais, e não da criança, ela tem um tempo diferente dos adultos.

Em meio à tantos “e se”, a criança pode se sentir pressionada e até mesmo frustrada com o não cumprimento dos prazos estipulados pelos pais, por exemplo: “se você correr, vai se machucar e ficar de castigo”. Tal ordem, pode levar a pais que renegam o amor ao filho quando não superam essa perspectiva, quando ficam de recuperação ou repetem de ano.

Pais não precisam ser rígidos com os filhos, mas, sim, devem tentar passar mais tempo com eles, para transpassar mais orientação e tratá-los com mais respeito. Pode parecer meia verdade, mas segundo análises, essa é a “fórmula”de maior resultado.

Kohn não mede suas palavras e tece com muita maestria sua linha de raciocínio, e afirma que, quanto mais usarmos a punição como conduta, mais criamos pessoas que pensam em como as consequências de suas ações afetarão elas próprias e não os outros. Gerando para o futuro, crianças simplesmente autocentradas.

Além disso, a punição impede a reflexão moral. É necessário frisar também, que estimular a competitividade, leva a criança a ver cada colega como potencial obstáculo para o seu sucesso, e os resultados previsíveis posteriormente são: alienação, inveja, raiva e agressividade. E não queremos crianças competitivas a ponto de afetarem seu próprio desenvolvimento lúdico, não é mesmo?

“Há uma grande diferença entre a criança que faz algo por acreditar ser o certo e aquela que faz a coisa certa por compulsão para agradar”

O verbete “É dando que se recebe…” não é nada apropriado para utilizar com as crianças quando se trata da troca que virá a beneficia-la no futuro. Por que não deveria ser um ato natural a realização de uma tarefa em benefício próprio?

O simples fato de escovar os dentes ou realizar o dever de casa, não seria por si só algo benéfico para si mesmo? É neste ponto que devemos evidenciar… é preciso conscientizar, mais que falar ou ameaçar, mesmo que, em meio aos afazeres domésticos e a rotina de século XXI, que exige muito de todos nós, torna-se mais um obstáculo, pois a premiação torna desnecessário o esclarecimento educativo, onde estariam incluídos os malefícios ou benefícios existentes por trás de cada ato praticado. Mas precisamos lembrar que é mais inteligente educar de maneira mais apropriada agora, e mais eficiente mostrar a realidade através de exemplos claros, assim como os efeitos negativos de cada omissão caso não cumpram com seus deveres?

Broncas continuarão fazendo parte dessa história, mas é importante lembrar que há outras maneiras que podem e devem ser trabalhadas. Acreditar que castigo é eficaz, é retrogrado, pois, a criança cria o temor, e muitas vezes não entende o por quê.

Crianças que são premiadas por bom comportamento acabam aprendendo a barganhar e tendem a desenvolver um esquema de valores baseado na posse e no sucesso. Esse processo deixa um vazio que vai se tornando angústia e leva invariavelmente ao sofrimento e ao adoecimento, uma vez que serão adultos que esperam ser recompensados por fazerem a coisa certa, sempre pelo ganho, é não pelo prazer.

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